As fantásticas aventuras (!!!) de dois jovens, que não fazem nada de útil da vida.

3.6.06

Nas imagens da TV eu vi tudo aquilo que eu sempre disse...infelizmente eu estava certo.

Uma colaboração ilustríssima do Prof. Alan Benedetto.
(No dia que ele publicar um livro e ficar famoso vou poder ficar metido e dizer "Alan?...Alan contribuia no meu blog, dei até uns toques pra ele.)
=)
Siga a estrada Alan, ela é longa e árdua mas o final sempre compensa. (E com a companhia certa ela se torna até agradável, e essa companhia eu sei que você tem.)
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Quando eu passei no vestibular da Universidade Federal da Bahia, meus pais me receberam com um ar de pesar. A pergunta foi: Por que? Minha mãe quase a chorar disse estar “feliz” mas, notei no olhar dela o total desapontamento. Ao mesmo tempo meu pai falou que eu iria fazer outro curso paralelo - quem sabe “Direito”? - mas, eu estava decidido: eu queria ser historiador. Diante daquela afirmação tão cheia de certeza, a casa tomou um ar de “felicidade” e logo começamos a falar das festas e outras coisas que fingimos comemorar. O tempo passou. Ao me deparar com a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas percebi que os medos dos meus pais eram justificados, eles temiam o triste fim da carreira do seu filho: professor. - Poderia ser Médico, Engenheiro e até Musico - a contragosto-, mas professor...professor não.

As imagens que chocaram o Brasil na ultima semana refletem um pais sem cara, que não se preocupa com os jovens, que glorifica o consumo desenfreado e esquece que a maior riqueza que um pais tem é o seu povo. Meninos e meninas sem futuro, criados pelo “Estado Paralelo” que supre com migalhas as lacunas que o Estado não quer enxergar. A miséria não tem nação, não tem idade, está ali, limpando os vidros dos carros. Não são as belas palavras que alimentam as bocas famintas daqueles que pedem para ser mais do que números estatísticos da violência, alarmados pelos meios de comunicação. Meu pai estava certo, o filho dele seria apenas um professor em um país que não liga para a educação. Não há respeito do poder publico por este profissional fundamental para o desenvolvimento do país. Para ser gari ou astronauta, tem que passar pelo banco da escola, e quem vai estar lá? O professor! Porem, não há apreço pela educação, e ficamos sempre a fingir que estamos fazendo algo de bom pelas crianças.

Diante dessa dura realidade, fico muito honrado por trabalhar em uma “ilha” de consciência. O Tribunal de Contas do Estado ao permitir que seus funcionários retomem os estudos, remando contra a corrente da desigualdade social, permitindo que muitos tenham uma segunda chance, e outros a primeira, de freqüentar uma escola. O esforço da coordenação do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos, simbolizado por Bete, para manter a qualidade deste projeto beira a “paixão”. Diariamente vejo a preocupação com a freqüência dos alunos, com o conteúdo das aulas, debatemos a metodologia e sempre saio com novas experiências que tentarei aplicar nas salas.

Neste novo semestre, a evasão tem sido o grande problema enfrentado pelos professores. A estrutura física da nova sala de aula é perfeita. Com a transferência do curso para as salas do primeiro andar, ganhamos privacidade. Não passamos mais pelos transtornas causados pelos colegas que não respeitavam a aula. No entanto, a mudança do horário das aulas tem sido o motivo apontado para o êxodo dos alunos. Sendo assim, o processo de avaliação deste semestre será processual, com atividades em sala de aula cujas notas serão somadas a avaliação final, sendo esta uma prova com questões objetivas e discursivas, resultando na média dos alunos.

Neste novo semestre a leitura continua sendo um grande empecilho para o fluxo das aulas. Ainda temos em nosso grupo vários alunos analfabetos funcionais ou plenos. As aulas de alfabetização iniciadas neste semestre abrirão portas importantíssimas para a inclusão destes alunos nos assuntos das aulas. O comportamento aversivo ao conteúdo dado, apresentado por certos alunos como Lucrecia, é fruto da sua falta de alicerce para estar na sala. Neste ponto podemos retomar a questão da avaliação já que a aluna não teria condições de ser avaliada como outros alunos que dominam plenamente a escrita como é o caso de João. Este aluno do ensino fundamental é, para mim, uma grata surpresa já que ele faz com que o projeto “ande”. Presente as aulas, atento, extremamente sensível aos conteúdos e cria debates pertinentes aos assuntos baseados em fontes alternativas ao livro didático. Junto com Domingos, criou um núcleo de solidariedade aos colegas cujas dificuldades travavam a dinâmica das aulas. Seria injusto Lucrecia e João da mesma forma? Não. Porem, os objetivos finais seriam diferentes: para João, a continuidade dos estudos até o Doutorado; para Lucrecia, a inclusão social que só a educação pode oferecer.

Sei que em todos os caminhos que percorremos em grupos, nem todos conseguem chegar ao final porem, temos que aprender a coroar os acertos, e olhar para aqueles que apesar das dificuldades do caminho não diminuem o passo. Tomarei como exemplo Valdir. No inicio do projeto, o aluno se mostrava extremamente quieto, sua voz não era ouvida nem no momento da chamada, incapaz de perguntar as horas, sua quietude me chamou atenção. Passei a cita-lo nos exemplos e a falar de assuntos que lhe causavam alguma reação. Lentamente, sua timidez diminuiu e a sua voz tornou-se presente. Devido as dificuldades no processo de alfabetização, Valdir pena para assimilar os conteúdos todavia, sua presença em todas as aulas revela o seu interesse de ser incluído. A educação não tem apenas a finalidade acadêmica, toda sala de aula é um núcleo de inclusão, a partir do momento em que o aluno percebe que ali ele vai encontrar alicerce para a vida pratica. Valdir, hoje, sabe que há muito mais coisas no mundo do que diz a bíblia e o padre na missa. Esta semana ele começou a perceber que a TV quer enganá-lo, que sempre houve pobreza, por que ele viveu nela, e não porque a rede Globo disse que existia. Para mim, Valdir é o símbolo da inclusão social da Educação, vou lutar para que outros sigam o mesmo exemplo.

No ensino médio, todos os elogios que eu fizer serão poucos. Ana Cristina manteve-se presente e dedicada a as aulas e tem tido excelentes resultados. Uma surpresa do ensino médio foi a mudança na postura de Magda. Renovada neste semestre, o seu desempenho e participação melhoraram muito, e ela tornou-se uma aluna exemplar.
Em relação as ausências, minha opinião é: o horário é mais uma desculpa para aqueles que não tem compromisso com os estudos, e não ligam para as vantagens que só poderiam ser oferecidas pelos órgãos públicos. O estereótipo do funcionalismo público está entranhado nos alunos que simplesmente preferem reclamar, ao fazer o mínimo esforço para melhorar a sua condição de vida. Estes alunos não deveriam prejudicar os que a presentes porém, no mundo real de “provas e expiações” isso acontece.

Para finalizar, gostaria de agradecer, a Dona Fátima, a Claudia, a Magaly e principalmente a Elizabeth (Bete), que com seu empenho e seu amor ao projeto despertou em mim o educador que nunca fui. São pessoas como estas que tornam a vida valida e renovam o nosso espírito de que ainda a jeito para este país, de uma sociedade esquizofrênica, que só agora “percebeu” a pobreza por que ela passou no Fantástico, e não quando ela estava batendo no vidro do nosso carro dizendo:
- Tem uma moeda ai tio!

Alan Benedetto, professor de Historia.

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